terça-feira, 30 de abril de 2019

Conto 3: O escapismo da Professora!


Conto 3: O escapismo da Professora!

O relógio estava prestes a marcar 12:15 na parede da sala de aula do 7 ano B, os pré-adolescentes na sala agitavam-se com a proximidade do horário da saída da escola Raio do Saber, localizada no centro da cidade.
A instituição era formada por duas áreas sendo uma para o ensino fundamental menor e outra para o fundamental maior e entre elas localizavam-se as quadras e piscinas, as cores do local eram pautadas em tons de amarelo, rosa e laranja dando uma atmosfera positiva e agradável para o ambiente.
Voltando ao 7 ano B, os dois últimos horários eram ministrados por Ada, professora de matemática, no momento sentada na carteira de frente para a sala, guardava suas pastas e materiais de trabalho, os alunos copiavam a atividade do quadro negro enquanto o quadro digital no fundo da sala encontrava-se desligado.
“Terça feira é o pior dia, já não me basta ser matemática ainda tem que ser essa professora” Dizia Rob, um dos alunos com seus cabelos negros bagunçados por já se tratar do fim do dia, enquanto guardava seu caderno em sua bolsa.
“Não precisa exagerar também! Ela é uma boa professora, na verdade o problema esta com vocês e não com ela” Uma garota com cabelos lisos e castanhos na altura dos ombros disse um pouco incomodada com a situação.
“Você não precisa fingir que gosta dela só pra ela te dar mais pontos todo mundo sabe que você é horrível em matemática e fica falando isso pra ver se ela escuta e fica feliz” O garoto disse irritado com a defesa, abrindo sua mochila azul, com alguns detalhes prateados, tirando um aparelho MP3 e desembaraçando os fones.
“Pra sua informação eu não preciso fingir nada, se você tentasse conhecer as pessoas antes de julga-las talvez pudesse pensar diferente” Reclamou a menina enquanto terminava de copiar a ultima questão.
“O Rob e a Gaby estão brigando?” Um garoto sonolento de cabeça baixa perguntou para o menino sentado da garota que escutava a discussão.
“Estão discutindo mais uma vez sobre gostar ou não da professora de matemática, eu não sei muito bem o que pensar então eu só fico quieto como sempre, não faz lá tanta diferença pra mim” Chris disse, possuía olhos castanho-escuros e seu cabelo possuía algumas mechas grandes caindo sob sua testa, porém em volume não era grande coisa.
“Há achei que fosse por outra coisa, mas ninguém gosta dessa mulher mesmo, não sei por que a Gaby ainda insiste em tentar convencer alguém do contrário” O outro disse para si e baixou a cabeça novamente desejando com que o tempo passasse rápido.
Ada escutava a maioria dos alunos dizerem o quanto não gostavam dela sem nem pensar duas vezes, normalmente ela escolhia ignorar, mas hoje em especial aqueles comentários a deixaram sensível.
Ela havia conhecido um possível pretendente e o convidara para sair o que lhe fazia ficar ansiosa para ver o que este lhe respondera, mas ainda não podia verificar seu celular em horário de trabalho, essa situação lhe dava um pouco de confiança, porém com o passar do dia o pessimismo tomou conta de seus pensamentos visto a quantidade de encontros frustrados que tivera nos últimos meses.
“Ele provavelmente nem vai se importar em responder e se responder vai ser que nem os outros e nem aparecer na hora e as meninas todas ocupadas com as vidas delas não vão ter tempo para lidar com as minhas crises” A mulher pensava quando a sirene tocou alto anunciando o fim do horário deixando todos os estudantes empolgados.
Não tardou para a sala estar vazia somente ela e o vento que entrava pela porta aberta, vento este que fazia seus cabelos rosados esvoaçarem um pouco, ajeitando seu óculos e tomando um pouco de coragem deixou a sala com a bolsa atravessada em sua cintura e segurando a pasta com as atividades e a frequência.
Seguindo pelo corredor e dobrando no corredor seguinte, parando no bebedouro para encher sua garrafinha, abrindo em seguida à porta no final do corredor, também conhecida como a sala dos professores.
Indo direto para o seu armário e guardando seus papeis um pouco apressada, pegou o celular, deslizando os dedos sobre a tela ansiosa por abrir o aplicativo de mensagens e ver o que ele respondera.
“Visualizou, porém não respondeu mais...faz três horas, mas talvez ele possa ter se esquecido e depois vai responder confirmando...” Disse para si mesma tentando compensar sua frustração.
Apenas ela encontrava-se no cômodo, seu coração encheu-se de pessimismo e ela devagar fechou a porta assumindo para si mesma a verdade dolorosa, ele não responderia mais e nem sairia com ela.
“Porque eu ainda tenho esperanças? Porque eu ainda me permiti acreditar e ainda me deixei levar como se eu fosse uma adolescente apaixonada! Daqui a pouco preciso ir para a prefeitura ao invés de me preparar estou ocupada ficando mal por besteiras” A mulher disse para si tentando se conformar.
Com a bolsa atravessada em sua cintura saiu do local, sentando-se nas arquibancadas do pátio da escola, tirando seu almoço, o cheiro do arroz e do bife mal passado exalaram assim que retirou a tampa do depósito, enquanto fazia sua refeição pensou em chamar suas amigas para sair e compensar sua frustração de alguma forma e livrar-se da monotonia que vivia sempre e da sensação de vazio que lhe atormentava.
“Vou ver se a Amanda e as meninas estão disponíveis pra ir na hamburgueria artesanal hoje” Comentou empolgada com ninguém em especifico.
No mesmo momento enviou as mensagens convidando-as e em alguns instantes viu todos os convites e propostas que fizera serem recusados um por um, a maioria diziam estar sem tempo, outras estavam sem dinheiro ou disposição e ainda haviam aquelas que coincidentemente marcaram outra coisa no dia e não poderiam comparecer.
“Acho que podemos dizer que hoje definitivamente não é meu dia...” Comentou e guardou o telefone no bolso de uma vez por todas.
Guardando o depósito agora vazio, a professora de matemática agora deixava a escola perdendo seu título de professora e sendo agora uma mulher de curtos cabelos rosas no meio da multidão, utilizava uma blusa marrom com detalhes quadriculados brancos, uma saia preta e sapatilhas vermelhas, seus óculos redondos aumentavam seus olhos castanhos hoje perdidos e sem brilho.
Esse sentimento lhe atormentava a tanto tempo que ela nem conseguia definir um ponto de partida exato para isso, seus pés faziam o caminho de todo dia para a parada enquanto o próprio tempo encarregava-se de colocar o ônibus em seu caminho e ao entrar nele como mágica já estava diante do prédio da prefeitura onde trabalhava como assistente recebendo e checando os papeis, administrando agendas, servindo cafés e escutando reclamações que nem faziam parte do seu trabalho.
Tudo aquilo para ela parecia tão repetido, sua vida era determinada por números e fórmulas que ela era obrigada a ver e planejar e depois vinham à infinidade de papéis e ordens que não possuíam um fim, e não havia retorno.
As crianças e adolescentes eram um lembrete constante do quanto ela era desinteressante agora e embora o ensino deles tivesse melhorado, não importava porque no fim ela não era carismática o suficiente para deixar a turma satisfeita como o antigo professor e era vista somente como um horário chato e descartável.
Toda vez que tentava um encontro com qualquer um, o assunto simplesmente não fluía era como se estivessem travados ou acorrentados, ela podia ver nos olhos de cada um dos caras o desinteresse chegando e após a conta ser paga por um dos dois ela sabia que nunca mais o veria novamente.
Suas amigas elas pareciam estar sem tempo, ou quando tinham pareciam estar sempre ocupadas com os próprios problemas, casa, filhos, maridos e suas vidas pareciam tão encaminhadas que os problemas da professora pareciam ridículos e ela simplesmente optava por não compartilha-los, por mais que no final ela sentisse a gigantesca vontade de desabar, ainda assim ela não o faria e se manteria firme pelo máximo de tempo.
Ada só desejava alguém, alguém capaz de despertar nela um sentimento diferente, um sentimento que lhe mostrasse o quão sua vida podia ser interessante, o quanto ela podia ser interessante e o que exatamente estava valendo a pena, podia ser qualquer pessoa, em qualquer lugar, a qualquer momento, ela estava disposta a encontrar esse alguém.
Como o local final que ainda precisava visitar, Ada agora encontrava-se de frente para um dos principais hospitais da cidade, o hospital James Bradstreet, suas cores pautadas em azul, branco e verde com enfermeiras e funcionários movendo-se de um lado a outro em uma sintonia mecânica, mas até bonita de se observar.
A mulher já não precisava mais identificar-se na recepção, pois se tornara basicamente conhecida no local, girando a catraca e adentrando a ala dos quartos dirigiu-se ao elevador conseguindo entrar antes que este fechasse com mais 4 pessoas, duas delas um homem e uma moça pareciam preocupados com a situação de quem quer que estivesse internado no local.
Enquanto ela e as outras duas pessoas pareciam lidar mais naturalmente com a situação, o elevador parou na ala dos quartos de número 300 e a professora não tardou em saltar dele e rapidamente se encontrava diante do leito 314, respirando fundo, a mulher fechou a mão sobre a maçaneta da porta.
Reunindo coragem ela a girou abrindo e adentrando o cômodo, podia-se dizer que era até espaçoso para um quarto de hospital, com duas poltronas reclináveis e um sofá no fundo do quarto, um frigobar ao lado de uma pequena bancada, a porta do banheiro na lateral do leito e no meio do quarto encontrava-se a cama dele.
“Oi papai, como foi o seu dia?” Perguntou sabendo que não seria respondida.
Colocando sua bolsa na bancada, ela se dirigiu a cama onde seu pai encontrava-se deitado, por mais que fizesse isso todos os dias ainda era difícil acostumar-se, ele costumava ser tão energético e agora nem sequer abria os olhos.
Os fios saiam dos recipientes com as medicações e sumiam cobertos pelo lençol branco, levando a medicação que entrava em contanto com as veias graças aos acessos, ela sabia que estava sendo melhor assim, os últimos surtos que seu pai tivera obrigaram os médicos a o colocarem num estado de coma induzido para que os medicamentos pudessem agir e combater as células cancerígenas.
“Espero que o senhor consiga sair dessa, hoje foi um dia tão complicado pra mim...eu gostaria tanto de conversar...quer dizer eu sei que estamos conversando, mas eu só queria...que me respondesse” Com dificuldade, a garota disse ajoelhando-se e segurando as mãos do pai.
“Como as coisas chegaram nesse ponto? Seria tão bom poder simplesmente voltar no tempo e deixar todo esse sofrimento de lado...sei que costuma dizer que tudo acontece por um propósito, mas as vezes eu sinto que simplesmente eu não sou forte o suficiente pra suportar a chegada desse futuro” Ada admitiu deixando seu coração sangrar por tudo que esteve reprimindo nos últimos dias.
Os fragmentos dos tormentos que surgiam em sua mente se confundiam com as lembranças de um tempo em que ela não precisava se preocupar com nada, uma Ada que outrora existiu, mas que agora não passava de um personagem deixado no passado.
“Eu era tão feliz, sem preocupações...com Fred, Manoel e a Nanda, todos os dias eram brincadeiras, o senhor era  tão feliz, nossa casa e os almoços que mamãe amava preparar todos os dias, as brincadeiras...voltar da escola e depois das atividades tudo que precisávamos fazer pelo resto do dia era encontrar algo que fosse divertido o suficiente pra que nossa imaginação pudesse vagar...” Os cabelos da moça caiam sobre seu rosto, mas ela não se importava em tira-los.
As lágrimas começavam a brotar entre os olhos da mulher e ela não fazia nenhum esforço para as impedir de cair.
“Hoje em dia as preocupações são tantas, a respeito de números, de como vou conseguir continuar custeando esse tratamento e a cada dia eu me sinto mais e mais sozinha e não sei até quando eu posso aguentar as coisas assim...sei que a culpa não é sua e talvez desabar assim não seja o modo como eu deveria lidar, mas eu queria tanto fugir dessa realidade e me sentir bem de novo...se eu pudesse voltar no tempo eu faria tudo diferente pra não chegar até aqui desse jeito...se eu pudesse apenas voltar...” Ada desabou e as lágrimas vieram carregadas de todas as emoções que ela estava reprimindo.
Elas caiam em uma cachoeira molhando o chão enquanto ela segurava a mão de seu pai, apenas o barulho do ar condicionado e os soluços da professora podiam ser ouvidos na sala, os ombros curvados enquanto seus sentimentos eram postos para fora e em seu peito uma dor.
E ao mesmo tempo que possuía uma dor em seu corpo, os desejos dentro de si, voltar no tempo, conseguir se manter bem no presente e conseguir um ainda futuro melhor, o desejo de escapar daquilo tudo e apenas sentir-se bem, esses sentimentos pouco a pouco preenchia cada parte do corpo da mulher.
Da ponta do pé até seus cabelos a mulher sentira um arrepio enquanto esses desejos eram já estavam em sua mente, possuindo cada centímetro do seu cérebro e tudo que ela conseguia pensar estava relacionado à progressão no tempo e no quanto ela queria ser capaz de melhorar as coisas.
O que mexia com o seu emocional, sentia uma dor dentro de si ao mesmo tempo em que uma nostalgia e uma esperança brotaram em si e ela não fazia ideia de onde estava tirando esses sentimentos, mas era certo que eles existiam.
Por fim uma camada de brilho dourado a envolveu, ela não sabia o que aquilo significava, porém a luz aumentava cada vez mais e enquanto isso a professora não sabia se estava sentindo tudo de uma vez ou nada.
Sentia-se cheia de energia agora, ao redor de onde estava ajoelhada, um relógio de bolso era desenhado a partir do brilho dourado saído de si, o relógio visto de cima era lindo e possuía detalhes minunciosamente traçados, Ada olhava ao redor incrédula e de alguma forma ela sabia que aquilo estava vinda dela, porém não compreendia o porque e muito menos como.
Era como se sua aura estivesse se manifestando pela primeira vez, agora uma ansiedade crescia dentro de seu peito, como se alguma coisa muito importante estivesse chegando e nesse momento o relógio de bolso desenhado no chão se iluminou envolvendo a garota num clarão poderoso.
O clarão durou cerca de 15 segundos e Ada sentia algo em seu corpo mudar, era como se uma camada extra de algo que ela não conhecia estivesse sendo adicionada em seu ser e não era uma sensação ruim, sentia como se o tempo fosse seu amigo agora, a noção e a ideia de tempo agora não lhe causavam mais tanto medo e um otimismo repentino também crescia dentro de si.
Após o cessar do clarão, a mulher de cabelos rosados ainda recuperava-se de tudo que havia acontecido.
“Ada! É um prazer conhece-la e uma honra para mim estar aqui, muito prazer” Uma coruja disse surgindo repentinamente ao lado da mulher.
“Q-Q-Quem é você? E como você consegue falar? E o que acabou de acontecer?” Perguntou a mulher confusa, ela estava indecisa se surtava mais com isso ou concluía que era tudo uma alucinação causada pelo estresse, porém aquela Coruja lhe passava uma sensação de conforto.
“Sou Owlkan, você me despertou, você relacionou seus sentimentos com seu profundo desejo de voltar no tempo e conseguir controlar seu futuro de tal forma que todo o seu corpo foi tomado por essa energia e você evoluiu passando a ser uma despertada e eu como seu espirito devo lhe ajudar a lidar com tudo isso como uma extensão de você” A Coruja disse tentando ser o mais explicativa que conseguira.
“Certo...agora além de depressiva e carente eu também sou louca, não acredito que isso seja real” Ada disse ainda cética com o ocorrido.
“Neste caso eu tenho uma péssima noticia para você” Owlkan disse um tanto quanto sarcástica.



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