terça-feira, 30 de abril de 2019

Conto 3: O escapismo da Professora!


Conto 3: O escapismo da Professora!

O relógio estava prestes a marcar 12:15 na parede da sala de aula do 7 ano B, os pré-adolescentes na sala agitavam-se com a proximidade do horário da saída da escola Raio do Saber, localizada no centro da cidade.
A instituição era formada por duas áreas sendo uma para o ensino fundamental menor e outra para o fundamental maior e entre elas localizavam-se as quadras e piscinas, as cores do local eram pautadas em tons de amarelo, rosa e laranja dando uma atmosfera positiva e agradável para o ambiente.
Voltando ao 7 ano B, os dois últimos horários eram ministrados por Ada, professora de matemática, no momento sentada na carteira de frente para a sala, guardava suas pastas e materiais de trabalho, os alunos copiavam a atividade do quadro negro enquanto o quadro digital no fundo da sala encontrava-se desligado.
“Terça feira é o pior dia, já não me basta ser matemática ainda tem que ser essa professora” Dizia Rob, um dos alunos com seus cabelos negros bagunçados por já se tratar do fim do dia, enquanto guardava seu caderno em sua bolsa.
“Não precisa exagerar também! Ela é uma boa professora, na verdade o problema esta com vocês e não com ela” Uma garota com cabelos lisos e castanhos na altura dos ombros disse um pouco incomodada com a situação.
“Você não precisa fingir que gosta dela só pra ela te dar mais pontos todo mundo sabe que você é horrível em matemática e fica falando isso pra ver se ela escuta e fica feliz” O garoto disse irritado com a defesa, abrindo sua mochila azul, com alguns detalhes prateados, tirando um aparelho MP3 e desembaraçando os fones.
“Pra sua informação eu não preciso fingir nada, se você tentasse conhecer as pessoas antes de julga-las talvez pudesse pensar diferente” Reclamou a menina enquanto terminava de copiar a ultima questão.
“O Rob e a Gaby estão brigando?” Um garoto sonolento de cabeça baixa perguntou para o menino sentado da garota que escutava a discussão.
“Estão discutindo mais uma vez sobre gostar ou não da professora de matemática, eu não sei muito bem o que pensar então eu só fico quieto como sempre, não faz lá tanta diferença pra mim” Chris disse, possuía olhos castanho-escuros e seu cabelo possuía algumas mechas grandes caindo sob sua testa, porém em volume não era grande coisa.
“Há achei que fosse por outra coisa, mas ninguém gosta dessa mulher mesmo, não sei por que a Gaby ainda insiste em tentar convencer alguém do contrário” O outro disse para si e baixou a cabeça novamente desejando com que o tempo passasse rápido.
Ada escutava a maioria dos alunos dizerem o quanto não gostavam dela sem nem pensar duas vezes, normalmente ela escolhia ignorar, mas hoje em especial aqueles comentários a deixaram sensível.
Ela havia conhecido um possível pretendente e o convidara para sair o que lhe fazia ficar ansiosa para ver o que este lhe respondera, mas ainda não podia verificar seu celular em horário de trabalho, essa situação lhe dava um pouco de confiança, porém com o passar do dia o pessimismo tomou conta de seus pensamentos visto a quantidade de encontros frustrados que tivera nos últimos meses.
“Ele provavelmente nem vai se importar em responder e se responder vai ser que nem os outros e nem aparecer na hora e as meninas todas ocupadas com as vidas delas não vão ter tempo para lidar com as minhas crises” A mulher pensava quando a sirene tocou alto anunciando o fim do horário deixando todos os estudantes empolgados.
Não tardou para a sala estar vazia somente ela e o vento que entrava pela porta aberta, vento este que fazia seus cabelos rosados esvoaçarem um pouco, ajeitando seu óculos e tomando um pouco de coragem deixou a sala com a bolsa atravessada em sua cintura e segurando a pasta com as atividades e a frequência.
Seguindo pelo corredor e dobrando no corredor seguinte, parando no bebedouro para encher sua garrafinha, abrindo em seguida à porta no final do corredor, também conhecida como a sala dos professores.
Indo direto para o seu armário e guardando seus papeis um pouco apressada, pegou o celular, deslizando os dedos sobre a tela ansiosa por abrir o aplicativo de mensagens e ver o que ele respondera.
“Visualizou, porém não respondeu mais...faz três horas, mas talvez ele possa ter se esquecido e depois vai responder confirmando...” Disse para si mesma tentando compensar sua frustração.
Apenas ela encontrava-se no cômodo, seu coração encheu-se de pessimismo e ela devagar fechou a porta assumindo para si mesma a verdade dolorosa, ele não responderia mais e nem sairia com ela.
“Porque eu ainda tenho esperanças? Porque eu ainda me permiti acreditar e ainda me deixei levar como se eu fosse uma adolescente apaixonada! Daqui a pouco preciso ir para a prefeitura ao invés de me preparar estou ocupada ficando mal por besteiras” A mulher disse para si tentando se conformar.
Com a bolsa atravessada em sua cintura saiu do local, sentando-se nas arquibancadas do pátio da escola, tirando seu almoço, o cheiro do arroz e do bife mal passado exalaram assim que retirou a tampa do depósito, enquanto fazia sua refeição pensou em chamar suas amigas para sair e compensar sua frustração de alguma forma e livrar-se da monotonia que vivia sempre e da sensação de vazio que lhe atormentava.
“Vou ver se a Amanda e as meninas estão disponíveis pra ir na hamburgueria artesanal hoje” Comentou empolgada com ninguém em especifico.
No mesmo momento enviou as mensagens convidando-as e em alguns instantes viu todos os convites e propostas que fizera serem recusados um por um, a maioria diziam estar sem tempo, outras estavam sem dinheiro ou disposição e ainda haviam aquelas que coincidentemente marcaram outra coisa no dia e não poderiam comparecer.
“Acho que podemos dizer que hoje definitivamente não é meu dia...” Comentou e guardou o telefone no bolso de uma vez por todas.
Guardando o depósito agora vazio, a professora de matemática agora deixava a escola perdendo seu título de professora e sendo agora uma mulher de curtos cabelos rosas no meio da multidão, utilizava uma blusa marrom com detalhes quadriculados brancos, uma saia preta e sapatilhas vermelhas, seus óculos redondos aumentavam seus olhos castanhos hoje perdidos e sem brilho.
Esse sentimento lhe atormentava a tanto tempo que ela nem conseguia definir um ponto de partida exato para isso, seus pés faziam o caminho de todo dia para a parada enquanto o próprio tempo encarregava-se de colocar o ônibus em seu caminho e ao entrar nele como mágica já estava diante do prédio da prefeitura onde trabalhava como assistente recebendo e checando os papeis, administrando agendas, servindo cafés e escutando reclamações que nem faziam parte do seu trabalho.
Tudo aquilo para ela parecia tão repetido, sua vida era determinada por números e fórmulas que ela era obrigada a ver e planejar e depois vinham à infinidade de papéis e ordens que não possuíam um fim, e não havia retorno.
As crianças e adolescentes eram um lembrete constante do quanto ela era desinteressante agora e embora o ensino deles tivesse melhorado, não importava porque no fim ela não era carismática o suficiente para deixar a turma satisfeita como o antigo professor e era vista somente como um horário chato e descartável.
Toda vez que tentava um encontro com qualquer um, o assunto simplesmente não fluía era como se estivessem travados ou acorrentados, ela podia ver nos olhos de cada um dos caras o desinteresse chegando e após a conta ser paga por um dos dois ela sabia que nunca mais o veria novamente.
Suas amigas elas pareciam estar sem tempo, ou quando tinham pareciam estar sempre ocupadas com os próprios problemas, casa, filhos, maridos e suas vidas pareciam tão encaminhadas que os problemas da professora pareciam ridículos e ela simplesmente optava por não compartilha-los, por mais que no final ela sentisse a gigantesca vontade de desabar, ainda assim ela não o faria e se manteria firme pelo máximo de tempo.
Ada só desejava alguém, alguém capaz de despertar nela um sentimento diferente, um sentimento que lhe mostrasse o quão sua vida podia ser interessante, o quanto ela podia ser interessante e o que exatamente estava valendo a pena, podia ser qualquer pessoa, em qualquer lugar, a qualquer momento, ela estava disposta a encontrar esse alguém.
Como o local final que ainda precisava visitar, Ada agora encontrava-se de frente para um dos principais hospitais da cidade, o hospital James Bradstreet, suas cores pautadas em azul, branco e verde com enfermeiras e funcionários movendo-se de um lado a outro em uma sintonia mecânica, mas até bonita de se observar.
A mulher já não precisava mais identificar-se na recepção, pois se tornara basicamente conhecida no local, girando a catraca e adentrando a ala dos quartos dirigiu-se ao elevador conseguindo entrar antes que este fechasse com mais 4 pessoas, duas delas um homem e uma moça pareciam preocupados com a situação de quem quer que estivesse internado no local.
Enquanto ela e as outras duas pessoas pareciam lidar mais naturalmente com a situação, o elevador parou na ala dos quartos de número 300 e a professora não tardou em saltar dele e rapidamente se encontrava diante do leito 314, respirando fundo, a mulher fechou a mão sobre a maçaneta da porta.
Reunindo coragem ela a girou abrindo e adentrando o cômodo, podia-se dizer que era até espaçoso para um quarto de hospital, com duas poltronas reclináveis e um sofá no fundo do quarto, um frigobar ao lado de uma pequena bancada, a porta do banheiro na lateral do leito e no meio do quarto encontrava-se a cama dele.
“Oi papai, como foi o seu dia?” Perguntou sabendo que não seria respondida.
Colocando sua bolsa na bancada, ela se dirigiu a cama onde seu pai encontrava-se deitado, por mais que fizesse isso todos os dias ainda era difícil acostumar-se, ele costumava ser tão energético e agora nem sequer abria os olhos.
Os fios saiam dos recipientes com as medicações e sumiam cobertos pelo lençol branco, levando a medicação que entrava em contanto com as veias graças aos acessos, ela sabia que estava sendo melhor assim, os últimos surtos que seu pai tivera obrigaram os médicos a o colocarem num estado de coma induzido para que os medicamentos pudessem agir e combater as células cancerígenas.
“Espero que o senhor consiga sair dessa, hoje foi um dia tão complicado pra mim...eu gostaria tanto de conversar...quer dizer eu sei que estamos conversando, mas eu só queria...que me respondesse” Com dificuldade, a garota disse ajoelhando-se e segurando as mãos do pai.
“Como as coisas chegaram nesse ponto? Seria tão bom poder simplesmente voltar no tempo e deixar todo esse sofrimento de lado...sei que costuma dizer que tudo acontece por um propósito, mas as vezes eu sinto que simplesmente eu não sou forte o suficiente pra suportar a chegada desse futuro” Ada admitiu deixando seu coração sangrar por tudo que esteve reprimindo nos últimos dias.
Os fragmentos dos tormentos que surgiam em sua mente se confundiam com as lembranças de um tempo em que ela não precisava se preocupar com nada, uma Ada que outrora existiu, mas que agora não passava de um personagem deixado no passado.
“Eu era tão feliz, sem preocupações...com Fred, Manoel e a Nanda, todos os dias eram brincadeiras, o senhor era  tão feliz, nossa casa e os almoços que mamãe amava preparar todos os dias, as brincadeiras...voltar da escola e depois das atividades tudo que precisávamos fazer pelo resto do dia era encontrar algo que fosse divertido o suficiente pra que nossa imaginação pudesse vagar...” Os cabelos da moça caiam sobre seu rosto, mas ela não se importava em tira-los.
As lágrimas começavam a brotar entre os olhos da mulher e ela não fazia nenhum esforço para as impedir de cair.
“Hoje em dia as preocupações são tantas, a respeito de números, de como vou conseguir continuar custeando esse tratamento e a cada dia eu me sinto mais e mais sozinha e não sei até quando eu posso aguentar as coisas assim...sei que a culpa não é sua e talvez desabar assim não seja o modo como eu deveria lidar, mas eu queria tanto fugir dessa realidade e me sentir bem de novo...se eu pudesse voltar no tempo eu faria tudo diferente pra não chegar até aqui desse jeito...se eu pudesse apenas voltar...” Ada desabou e as lágrimas vieram carregadas de todas as emoções que ela estava reprimindo.
Elas caiam em uma cachoeira molhando o chão enquanto ela segurava a mão de seu pai, apenas o barulho do ar condicionado e os soluços da professora podiam ser ouvidos na sala, os ombros curvados enquanto seus sentimentos eram postos para fora e em seu peito uma dor.
E ao mesmo tempo que possuía uma dor em seu corpo, os desejos dentro de si, voltar no tempo, conseguir se manter bem no presente e conseguir um ainda futuro melhor, o desejo de escapar daquilo tudo e apenas sentir-se bem, esses sentimentos pouco a pouco preenchia cada parte do corpo da mulher.
Da ponta do pé até seus cabelos a mulher sentira um arrepio enquanto esses desejos eram já estavam em sua mente, possuindo cada centímetro do seu cérebro e tudo que ela conseguia pensar estava relacionado à progressão no tempo e no quanto ela queria ser capaz de melhorar as coisas.
O que mexia com o seu emocional, sentia uma dor dentro de si ao mesmo tempo em que uma nostalgia e uma esperança brotaram em si e ela não fazia ideia de onde estava tirando esses sentimentos, mas era certo que eles existiam.
Por fim uma camada de brilho dourado a envolveu, ela não sabia o que aquilo significava, porém a luz aumentava cada vez mais e enquanto isso a professora não sabia se estava sentindo tudo de uma vez ou nada.
Sentia-se cheia de energia agora, ao redor de onde estava ajoelhada, um relógio de bolso era desenhado a partir do brilho dourado saído de si, o relógio visto de cima era lindo e possuía detalhes minunciosamente traçados, Ada olhava ao redor incrédula e de alguma forma ela sabia que aquilo estava vinda dela, porém não compreendia o porque e muito menos como.
Era como se sua aura estivesse se manifestando pela primeira vez, agora uma ansiedade crescia dentro de seu peito, como se alguma coisa muito importante estivesse chegando e nesse momento o relógio de bolso desenhado no chão se iluminou envolvendo a garota num clarão poderoso.
O clarão durou cerca de 15 segundos e Ada sentia algo em seu corpo mudar, era como se uma camada extra de algo que ela não conhecia estivesse sendo adicionada em seu ser e não era uma sensação ruim, sentia como se o tempo fosse seu amigo agora, a noção e a ideia de tempo agora não lhe causavam mais tanto medo e um otimismo repentino também crescia dentro de si.
Após o cessar do clarão, a mulher de cabelos rosados ainda recuperava-se de tudo que havia acontecido.
“Ada! É um prazer conhece-la e uma honra para mim estar aqui, muito prazer” Uma coruja disse surgindo repentinamente ao lado da mulher.
“Q-Q-Quem é você? E como você consegue falar? E o que acabou de acontecer?” Perguntou a mulher confusa, ela estava indecisa se surtava mais com isso ou concluía que era tudo uma alucinação causada pelo estresse, porém aquela Coruja lhe passava uma sensação de conforto.
“Sou Owlkan, você me despertou, você relacionou seus sentimentos com seu profundo desejo de voltar no tempo e conseguir controlar seu futuro de tal forma que todo o seu corpo foi tomado por essa energia e você evoluiu passando a ser uma despertada e eu como seu espirito devo lhe ajudar a lidar com tudo isso como uma extensão de você” A Coruja disse tentando ser o mais explicativa que conseguira.
“Certo...agora além de depressiva e carente eu também sou louca, não acredito que isso seja real” Ada disse ainda cética com o ocorrido.
“Neste caso eu tenho uma péssima noticia para você” Owlkan disse um tanto quanto sarcástica.



sexta-feira, 19 de abril de 2019

Conto 2: A batalha contra os influenciados


Conto 2: A Batalha contra os Influenciados!
Rob e Steve corriam lado a lado pelas ruas da cidade, o garoto de 14 anos na frente do senhor visto que a idade desse último não permitia mais tais atividades com tanta naturalidade, os níveis da energia de influência estavam incrivelmente altos o que estava longe de ser um sinal positivo.
“Essa energia me faz sentir que vou vomitar a qualquer momento...e estou muito enjoado” Reclamou o moreno arfando e passando a mão pelo abdômen.
“Acho que é a primeira vez desde que começamos a treinar que uma onda de influência dessa proporção se manifesta, ela não é capaz de te atingir diretamente, porém até você se acostumar vai lhe causar esse tipo de reação” Explicou o senhor com uma pequena gota de suor deslizando por sua nuca até a gola da camisa social verde-oliva com flores rosa detalhadas.
“Mesmo sem essa reação, é algo horrível de se sentir, é como se algo além do meu corpo estivesse sendo ou querendo ser comprimido o tempo inteiro só que alguma coisa impede que isso aconteça” Detalhou o garoto enquanto corria.
“É por isso que devemos ter cuidado, eu e você podemos influenciar as pessoas e acabar determinado o destino delas, mas ninguém deve obrigar os outros a seguirem algo que não querem mesmo que tenha poder pra isso, não concordo com esse tipo de pensamento e não sei o que você pensa a respeito, mas se esta comigo é porque no mínimo simpatiza com a minha ideia” Steve disse ficando um pouco serio.
Rob ainda não acreditava tanto assim na proporção e no poder das ondas de influências, o menino só acreditaria quando visse as consequências do uso desse tipo de poder na sua frente, o que não estava muito longe de acontecer.
Passaram pela parte mais movimentada da cidade com certa pressa, os vendedores se dividiam em lojinhas e algumas tendas ou barracas armadas com madeira, a senhora dos temperos cumprimentara Rob com simpatia e este devolveu o cumprimento à medida que corria a maioria das pessoas ocupadas com suas vidas mal davam importância aos dois.
“Uma ajuda, por favor, não importa o valor qualquer contribuição vai servir” Um homem pedia sentado na escadaria da biblioteca com um chapéu, com cerca de cinco moedas, em seu colo.
“Droga nós saímos tão rápido que não deu tempo de pegar um centavo, infelizmente não vou poder ajuda-lo hoje” Parando Steve cumprimentou o morador de rua com um sorriso enquanto se explicava.
“Sua intenção já me faz bastante feliz, senhor, muito obrigado” O Homem respondeu sentindo-se bem por alguém ter se importado para falar com ele.
“Vamos logo Steve! Não podemos perder muito tempo com essas distrações lembra!” Avisou o garoto puxando pelo braço do idoso sem nem olhar para o outro e assim continuaram seguindo.
Dobrando na esquina da metalúrgica seguindo até a parte da cidade onde ficavam prédios e condomínios mais luxuosos, as ondas tinham sua origem em um beco que separava dois edifícios, aparentemente as duas habitações compartilhavam o local para depositar o lixo que era recolhido depois pelo sistema de coleta da cidade.
Cerca de quatro lixeiras verdes lotados de lixo povoavam o lugar, duas perto de onde os dois despertados estavam e as outras duas no final do beco, um odor fraco pairava no ar e a fraca iluminação dos postes causava sombras na extensão daquele espaço provocando certo medo no menino e este fazia o possível para não ficar tão longe do senhor enquanto andava.
“A onda que esses influenciados emanam é realmente poderosa, já que até eu estou quase enjoado e isso me preocupa bastante, pois com certeza eles não foram influenciados por um despertado comum” O idoso disse impressionado.
“Argh....essa sensação é horrível, a dor na minha barriga não para de aumentar! E...eu não sabia que a força dos despertados deixa o influenciado mais forte” Rob disse incomodado enquanto tentava conter a dor abraçando a barriga por cima da camisa preta e azul que usava.
“Eu não conheço tão bem as habilidades de um influenciado, mas o poder do despertado influência...” Explicava o mais velho, porém sendo interrompido.
Um barulho foi ouvido por ambos e uma das lixeiras no final do beco tombou como se não pesasse nada, assustando os dois despertados, porém Steve logo tratou de manter sua expressão neutra já que precisava passar alguma calma para Rob, o menino estava à beira de um ataque de pânico.
A pressão que a onda exercia passou a se expandir causando tremores no chão e o vidro dos postes ao redor começava a rachar, erguendo-se, atrás da lixeira derrubada, quatro figuras os encaravam enquanto ambos nem ousavam mexer um musculo sequer.
As figuras revelaram-se como três garotas e um garoto, todos adolescentes, cercados por uma aura negra que se dispunha em seus corpos como um véu de bolhas estourando e se reconstruindo a cada instante, suas cabeças jogadas para trás como se tivessem um peso enorme enquanto as íris focavam para cima vislumbrando algo oculto para os despertados ao mesmo tempo em que passavam a sensação de encarar tudo ao seu redor.
Uma das adolescentes dava alguns passos a frente emitindo sons agudos sem significado algum.
“Precisamos s-s-sair daqui agora senhor Steve” Sussurrou o garoto amedrontado.
“Não faça nenhum movimento brusco ainda e não podemos deixar eles aqui, pode acontecer qualquer coisa com as pessoas ao redor e como despertado eu não vou permitir, porém se sente que deve ir eu não vou impedi-lo” Declarou enquanto mantinha o olhar fixo nos possíveis oponentes.
Rob lembrou-se das ultimas semanas em que passara treinando na casa do senhor, metade das lições o garoto teria desistido da primeira vez e só agora acreditara no quão poderosos os seres que estavam diante dele eram.
“Ele me apoiou mesmo quando eu quis desistir, nunca me obrigou a ficar e dessa forma eu evolui e agora é minha vez de apoia-lo em sua decisão” Decidiu o menino em seus pensamentos.
A empolgação de Rob acabou por aumentar a onda emitida naturalmente por ele e ao senti-la a influenciada que caminhava na direção de ambos soltou um terrível grito agudo, ao mesmo tempo em que jogou a cabeça para trás, seus olhos brilhavam como um farol roxo e o véu de protuberâncias negras que encobria sua pele passou a ganhar a forma de um espectro atrás da menina.
Emitindo gritos graves e agudos, os outros três faziam o mesmo como que por instinto enquanto os espectros se elevavam acima deles, uma massa de fumaça e protuberâncias negras tão macabras quanto eram nojentas.
A garota a frente de todos soltou mais um de seus gritos e o espectro saído de si tratou de forjar um braço enquanto reunia uma esfera feita de uma energia arroxeada e com uma potencia agressiva atirou na direção de ambos os despertados um poderoso feixe que misturava uma estranha fumaça junto da energia.
O ataque rumava ameaçando ambos, o aspirante a musico não tivera outra reação fora gritar e desesperar-se, porém o senhor tomara a frente determinado a defendê-lo.
Limpando uma das mãos na camisa florida que utilizava e concentrando o sentimento de alegria em si uma iluminação esverdeada passou a envolvê-lo, o idoso ergueu ambas as mãos abertas para frente e a energia que o envolvia tomou a forma de uma chama esverdeada.
“Que incrível! Eu não sabia que dava pra fazer um escudo assim, estranhamente me sinto feliz aqui dentro” O garoto constatou vendo que o escudo possuía a forma de uma chama queimando com eles dentro.
O feixe atingiu a chama que protegia os dois despertados dentro dela, a influenciada continuava a gritar e o espectro forçava o ataque tentando derrubar a defesa do senhor, resistindo como podia, Steve mantinha forças em suas pernas e controlava o fluxo da energia mantendo a chama acesa.
Logo a garota interrompeu o ataque buscando recuperar energia, recuando e unindo-se novamente aos seus amigos, os quatro influenciados expandiam a onda que denunciava suas identidades, os espectros animados ergueram-se acima dos quatro soltando esferas fumacentas negras carregadas de poder num poderoso ataque quadruplo.
“Continuar na defensiva não vai adiantar de muita coisa agora!” Sorriu o senhor e o garoto entendeu do que se tratava.
“Desculpe-me por ficar tão desesperado, prometo ser mais útil daqui pra frente, vou lutar com o senhor” Rob sorrindo deu um passo à frente ficando ao lado do mentor.
Ambos os despertados buscaram em si os sentimentos que os tornava maiores que um humano comum, a alegria fluía em Steve como labaredas esverdeadas ao passo que a força de vontade de Rob se erguia como uma linha horizontal de colunas azuis fluorescentes.
Fazendo uma reverencia as chamas desceram pelos pés do idoso queimando à sua frente na forma de um turbilhão enquanto as colunas de Rob reuniram-se numa esfera luminosa acima do garoto, que apontando para frente com a mão direita, disparou um feixe ao lado do turbilhão de chamas.
E em pouco tempo Diwase e Ticsic revelaram-se.
“A situação é um pouco complicada, mas preciso de um escudo Diwase!” Pediu Steve um pouco nervoso enviando uma corrente de chamas para o espirito.
“E lá vamos nós queridos!” Atentando-se ao tom de voz e a situação, a planta sacudiu seu cabelo erguendo as folhas de seu caule enquanto a energia preenchia seu corpo.
Ao seu comando duas raízes que escapavam do vaso em que estava plantada se ergueram quadruplicando de tamanho entrelaçando-se e tomando a forma de um escudo que recebeu o ataque e este se transformou em uma explosão poderosa devido a potencia.
“Eles são poderosos, mas não vão cortar minhas raízes agora!” Motivando-a si mesma Diwase aguentou o golpe mantendo o escudo com dificuldade e derrapando um pouco para perto de Steve.
“Você é incrível, Diwa!” Elogiou o gato sonoro.
“Meu amor, eu sei” A planta recompôs-se de imediato balançando seu cabelo e voltando-se para os adversários.
Com um grito a influenciada, que se destacava como líder do grupo, chamou a atenção daqueles com ela, movendo-se com rapidez os três precipitaram-se para frente ativando o manto de protuberâncias em suas peles alimentando os espectros saídos da costa de cada um dos influenciados.
Os adolescentes moviam seus corpos livres como senão tivessem osso algum enquanto os espectros de forma uma humanoide ganhavam garras e punhos fortificados prontos para atingir os dois espíritos.
“T-Ticsic precisamos impedi-los agora!” Gritou o menino com as pernas bambas.
O garoto despertado acessando seus sentimentos fez surgir um pilar de energia envolvendo o felino musical, ao sentir a energia fluindo e ativando as tatuagens em seu corpo, Ticsic logo ergueu as patas soltando ondas sonoras num formato circular.
As ondas possuíam uma frequência grave e ao entrar em contato com a aura dos espectros, deixava-os totalmente imobilizados no ar, enquanto o garoto e seu espirito se esforçavam para manter aquela situação.
“Acho que o senhor pode a-atacar agora...” Disse com um pouco de dificuldade por conta do esforço que fazia para manter o equilíbrio.
“Sejamos rápidos, Diwase é hora de agir!” Exclamou o senhor fazendo cair do céu uma chuva de chamas ao redor do espirito que tomava a frente da situação.
“É hora do show, meu astral hoje esta mais despertado que qualquer outra alma!” A planta carnívora girava balançando seu coque.
Reunindo toda a energia doada para si, ela ergueu as folhas na extensão de seu caule e o chão passou a tremer, rachando logo em seguida, enquanto raízes de carvalho fortificadas se elevavam na direção dos três adolescentes imobilizados no ar e os envolviam.
“N-Não estou mais...conseguindo aguentar...” Arfava o gato.
“E é agora que vem a mágica” A outra disse sorridente.
Os três influenciados agora estavam envolvidos no abraço das raízes de carvalho e Ticsic cessara seu ataque, com um comando da planta carnívora uma fileira de espinhos surgia por todas as raízes perfurando a pele dos adolescentes e estes se contorciam em agonia.
“Porque eles não estão sangrando?” Perguntou Rob um pouco amedrontado com a brutalidade do golpe.
“O corpo e alma deles esta todo contaminado por essa energia, precisamos dar um jeito de extingui-la para que eles voltem ao normal, influenciados não são humanos, são apenas uma casca contaminada pela alma de outra pessoa e nós devemos trazer de volta a humanidade que lhes foi tirada” Steve explicou num tom mais sombrio do que o habitual, o senhor odiava esse tipo de injustiça com as pessoas e saber que ele também podia fazer isso com os outros caso não tomasse cuidado também o deixava preocupado.
O espirito musical observava a companheira impressionado, mesmo se esforçando os espectros não conseguiam fazer nada contra a força do espirito vegetal em contrapartida se Ticsic parasse por um segundo não teria conseguido mantê-los imobilizados.
“Sinto que não estou fazendo muita diferença aqui...me desculpe por ser tão fraco Rob” O felino dizia triste com sua performance.
“Não se culpe por isso, ainda estamos descobrindo nossos poderes e não podemos ficar aqui sem fazer nada, por isso vamos tentar descobrir no que exatamente podemos ajudar e nos martirizar depois!” O garoto disse decidido.
Foi então que um grito se fez presente, os dois despertados haviam esquecido da quarta influenciada, com um salto ela aproximou-se e ao invés de ataca-los diretamente a garota ergueu os braços atingindo um solo com um potente tapa.
Seus braços encheram-se de protuberâncias e em seguida estas escorreram como ácido contaminando todo o solo e fazendo uma mancha negra surgir e rumar em direção aos dois espíritos.
“Rápido Diwase tente acabar com ao menos um deles e...Rob cuidado!” Gritou o senhor vendo o ataque da adversária.
Antes que pudessem fazer qualquer coisa, a influenciada soltou outro de seus gritos e conforme a mancha negra no chão se expandia o solo explodia na mesma proporção e ao chegar aos pés dos despertados a energia se acumulou e os atingiu com potencia.
Steve conseguiu neutralizar alguns dos danos ao envolver-se com Rob em uma chama esverdeada, porém não conseguiu ajudar os espíritos e a explosão logo surgiu atirando os dois para o começo do beco, os dois apenas com alguns arranhões, diferente do solo que agora estava todo rachado.
Diwase teve seu ataque desfeito e fora jogada dentro de uma lata de lixo enquanto Ticsic estava debaixo dos escombros sem conseguir levantar-se direito.
“HUUAAWWW!” Gritou a garota como uma espécie de ordem.
Seus três servos agora livres das raízes caminhavam lentamente mirando nos dois despertados vulneráveis por conta do golpe anterior, o aspirante a músico ainda de joelhos, mal conseguia se mexer tanto pelo susto quanto pelo dano que havia tomado.
“Droga, eles são realmente poderosos e também não imaginei que fossem tão espertos, foi erro meu por subestima-los” O gentil e calmo senhor, agora começara a entrar em parafuso diante da atual questão.
As protuberâncias surgiam nos braços dos três adolescentes e tomavam a forma de garras negras espectrais enquanto a mais poderosa deles se erguia com seu espectro tomando a forma de uma nuvem negra encobrindo todo o beco.
Das nuvens negras chovia energia espectral absorvida pelos três adolescentes que passaram a correr prontos para encerrar Steve e Rob, as garras brilhavam em tom purpura enquanto secretavam um líquido corrosivo, os três corriam batendo seus corpos nas lixeiras e cortando suas peles nos destroços do solo, mas nada parecia preocupa-los.
O despertado se preparava para defender quando sentiu fortes dores no braço e sua preocupação não deixava com que acessasse os sentimentos que originavam seu poder, o que não era problema para os influenciados visto que continuavam investindo.
“NÃO!!” Diwase gritou saindo do lixo, com o pouco de energia astral que ainda restava, a planta brilhava em esverdeado, no meio das folhas que se conectavam com seu “pescoço” uma linda flor com pétalas douradas desabrochou.
“Diwase, isso é?” Perguntou o senhor.
“Eu estou à 3 anos tentando te proporcionar alegria de todas as formas que eu posso, não vou permitir com que ninguém destrua o que estou tentando preservar!” Ela dizia determinada, flor que desabrochara potencializava seu poder e velocidade de criação, porém ela só teria como usar um golpe.
Diwase ergueu as folhas e o solo nem teve tempo de tremer, pequenas explosões surgiam enquanto o solo era todo rachado por videiras iluminadas e estas logo rumaram contra os três influenciados, conseguindo capturar dois deles, porém o terceiro escapara e se saltou pronto para o golpe final.
Ao identificar o que aconteceria, a planta ignorou os outros dois já capturados e comandou um comboio de videiras laçando a criatura não humana no meio do ar, fazendo brotar espinhos e perfurando todo o corpo do influenciado tratando de eliminar toda a corrupção de dentro do ser deixando-o inconsciente e o atirando no chão com todas as feridas já curadas e sem mais forças Diwase desmaiara.
“Isso foi incrível, ela conseguiu derrotar um deles com apenas um golpe, mas agora o que vamos fazer, Ticsic! Eu preciso de ajuda, por favor levante-se!” Gritou Rob se mantendo de pé com dificuldade ao lado de Steve.
Ainda restavam três influenciados, agora irritados com a derrota de um deles, os espectros aumentavam ainda mais de tamanho enquanto os adolescentes pareciam pensar no que poderiam fazer para conseguirem se vingar a altura.
“É por isso que não se deve deixar crianças e idosos brincarem sozinhos, eles podem se machucar” Uma voz um tanto quanto apática, porém debochada dizia atrás deles.
Os dois despertados acompanharam enquanto ao redor de ambos, gotículas de água retiradas da umidade do ar se tornavam visíveis como se alguém resolvera parar o tempo naquele exato momento.
Elas dançavam se concentrando acima de todos no beco em um pequeno lago no meio do ar, era uma vista um tanto quanto incrível, Steve e Rob estavam curiosos para descobrir quem era o responsável por isso e ao virarem depararam-se com um garoto um pouco mais velho que Rob.
“V-Você?” O aspirante a músico dissera surpreso.
Os cabelos prateados do garoto esvoaçavam à medida que ele movimentava os braços a energia de sua alma manifestava-se através de bolhas criadas por ele mesmo, elas surgiam ao seu redor brilhando em um azul turquesa que era refletido em seu olho também azul, vestia uma camisa estampada com um escudo, bermuda lisa e tênis acinzentados.
Controlava as bolhas em direção a uma pequena tartaruga bípede diante de si, possuía apenas as nadadeiras dianteiras grandes e em suas pernas utilizava galochas amarelas, a linha do meio em seu casco era decorada com espinhos enquanto em sua testa estavam óculos de mergulho presos por uma faixa.
“Mizuno sei que vamos conseguir” Disse o garoto tranquilo.
“Tudo bem, Anthony, eu confio em você, prefere a chuva ou outro tipo de ataque?” Perguntou a pequena tartaruga.
“Faça como você achar melhor, mas ataque apenas os dois primeiros, deixe a garota por ultimo” Alertou o prateado.
Mizuno envolvida pela energia, ergueu as duas nadadeiras e as baixou de uma vez, enquanto Rob e Steve acompanhavam impressionados com a técnica, o lago flutuante começou a se desfazer pouco a pouco, a medida que gotas afiadas como laminas desciam dos céus atingindo os dois servos da garota.
Atravessando todo o corpo dos dois influenciados e os lavando por dentro deixando-os desmaiados logo em seguida ao lado do primeiro que havia sido nocauteado por Diwase.
“Agora vamos finalizar, Mizuno uma tromba d’agua e rápido” Gritou Anthony logo em seguida.
Com um grito de ódio a garota se impulsionou na direção de Rob e Steve, porem focando no terceiro despertado, a tartaruga não tardou em reagir fazendo o solo abaixo de si ser inundado e movendo suas nadadeiras para simular uma onda fez com que a água se unisse inteira e partisse em direção a garota.
Das costas dela asas espectrais se formaram permitindo com que desviasse do ataque e fosse ainda mais rápido na direção dos três.
“Divida!” Gritou o garoto.
Mizuno abriu os braços e a concentração de água se dividiu em dois feixes e ambos atingiram a influenciada no meio do ar, em seguida a tartaruga aprisionou a adversaria em uma bolha enquanto lavava as impurezas dentro dela, a influenciada gritava em agonia, mas logo ficara inconsciente e fora atirada no chão junto com os outros.
“Essa influenciada era realmente poderosa, acho que melhorei bastante em velocidade de reação” A criatura marinha dizia orgulhosa de si.
“Claro que melhorou, meus parabéns! E vocês...vocês deram sorte, eu senti a energia de vocês em combate quando estava passando para comprar um lápis, da próxima vez que quiserem atuar como heróis certifiquem-se de que podem realmente ganhar” Avisou o garoto.
“Muito obrigado pela ajuda...Anthony, estamos em divida com você e espero poder retribuir o favor algum dia desses” Steve agradeceu formalmente.
Já Rob, ele mal conseguia acreditar que aquele garoto também era um despertado e tinha acabado de salvar sua vida, ele morava em sua rua e estava sempre sozinho e nunca brincava com os outros meninos, o moreno e seus amigos costumavam falar muitas coisas sobre Anthony e agora Rob sentia-se envergonhado e nem conseguia expressar gratidão.
Talvez ele devesse realmente mudar seu pensamento sobre algumas pessoas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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